Sair da academia não é um fracasso. Para muitos investigadores, a transição da academia para a indústria é uma escolha deliberada e estratégica. No entanto, quando chega a hora de dar o salto, a maioria das pessoas depara-se com o mesmo conjunto de desafios. Não por falta de competências, mas porque ninguém as ensinou a traduzi-las numa linguagem que a indústria entenda.
Na scientifyRESEARCH, trabalhamos diariamente com investigadores de diferentes etapas de carreira, disciplinas e objetivos profissionais. As mesmas dinâmicas repetem-se vezes sem conta. Este artigo de opinião foca-se naquilo que realmente importa no momento da transição, no que costuma ser um obstáculo e no que podes fazer, na prática, para avançar.
1. O que a transição da academia para a indústria realmente exige
Os investigadores subestimam consistentemente o que construíram. Anos de resolução independente de problemas, gestão de projetos, comunicação com partes interessadas (stakeholders), redação de candidaturas a financiamento, colaboração intercultural e tomada de decisões de alto impacto sob pressão. Estas são exatamente as competências que a indústria procura.
O problema não é a experiência. É a linguagem. Um currículo cheio de publicações, bolsas/prémios de financiamento e palestras em conferências não transparece de imediato como valor de negócio para um responsável de seleção (hiring manager) que nunca trabalhou na investigação. O teu trabalho é fazer essa tradução por eles.
Começa por perguntar: qual foi o impacto no mundo real daquilo que fiz? Não o impacto académico. O impacto prático. Quem beneficiou? Que problema resolveu? O que é que não teria acontecido sem a minha contribuição?
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2. O teu currículo está a jogar contra ti
O currículo académico não foi feito para a indústria. É longo, focado em publicações e estruturado segundo uma lógica que os responsáveis de seleção (hiring managers) fora da academia simplesmente não partilham. Um documento de 10 páginas a listar todas as conferências em que estiveste presente em 2019 não te vai abrir portas.
Os currículos para a indústria têm tipicamente duas páginas, são focados em resultados e escritos numa linguagem clara. Cada ponto em lista (bullet point) deve responder a uma pergunta: o que alcançaste e qual foi o impacto?
Isto não significa apagar o teu percurso de investigação. Significa mudares a perspetiva. “Liderou uma equipa de quatro pessoas num projeto interdisciplinar de dois anos” soa de forma muito diferente de “co-investigador em bolsa de investigação”. Ambos descrevem a mesma coisa, mas apenas um fala a linguagem da indústria.
A tua apresentação pessoal (personal pitch) é igualmente importante. Ser capaz de te apresentares de forma clara, confiante e sem jargon (jargão técnico) em 90 segundos é uma competência que exige prática. A maioria dos investigadores nunca teve de o fazer.
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3. A tua rede de contactos é maior do que pensas, mas estás a usá-la mal
A maioria dos investigadores parte do princípio de que a sua rede de contactos é estritamente académica e, por isso, inútil para a indústria. Isto quase nunca é verdade. Entidades financiadoras, colaboradores da indústria, antigos alunos do teu programa, ex-colegas de laboratório que deram o salto antes de ti, estas ligações já existem. A questão é como as podes ativar de forma diferente.
O networking na indústria não consiste em pedir um emprego. Consiste em ter conversas genuínas, compreender como a tua experiência é percetionada em diferentes setores e construir relações ao longo do tempo. Os investigadores que fazem a transição da academia para a indústria com maior sucesso são, normalmente, aqueles que começaram a ter estas conversas seis a doze meses antes de precisarem.
O teu conhecimento sobre financiamentos e a tua credibilidade académica também abrem portas que candidatos de outras áreas não têm. Saber como a investigação é financiada, avaliada e comunicada a nível institucional é algo verdadeiramente valioso na consultoria, em políticas públicas, na indústria farmacêutica e não só.
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4. As entrevistas na indústria são outro campeonato e exigem uma preparação diferente
Entrevistas baseadas em competências, perguntas comportamentais, estudos de caso, “por que motivo está a sair da academia?”. Nada disto corresponde à apresentação de um trabalho académico (job talk) ou à defesa do doutoramento. A maioria dos investigadores vai para as primeiras entrevistas na indústria sem a preparação necessária. Não por falta de qualificações, mas porque nunca praticou neste formato.
A coisa mais importante que podes fazer é praticar em voz alta, em condições o mais reais possível, com alguém que te dê um feedback honesto. Não um amigo que seja apenas simpático, mas alguém que te diga quando a tua resposta é demasiado longa, demasiado académica, ou quando pareces hesitante sobre algo que devias assumir com confiança.
Saber o teu valor de mercado também importa. A negociação salarial é uma competência e, ao sair da academia, os investigadores tendem frequentemente a desvalorizar-se. Compreender quanto vale o teu perfil no teu setor-alvo faz parte de estar preparado.
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Algumas recomendações do nosso conjunto de ferramentas (toolkit)
Estas são algumas ferramentas e recursos que vale a pena ter à mão durante a tua transição:
Um leitor de confiança: Alguém fora da academia que possa ler o teu material de candidatura e dizer-te o que funciona e o que não resulta. Um feedback honesto nesta fase poupa imenso tempo.
LinkedIn: Atualiza o teu perfil antes de começares a candidatar-te. Os recrutadores vão procurar-te antes de tu os procurares a eles. Facilita-lhes o trabalho para que percebam o que fazes e o que procuras.
Entrevistas informativas (Informational interviews): Entra em contacto com pessoas que já trabalham no teu setor de interesse e pede-lhes uma conversa de 20 minutos. A maioria diz que sim, especialmente se fores genuinamente curioso e não estiveres a pedir um emprego.
Plataformas de emprego a guardar nos favoritos: Nature Careers, EuroScienceJobs e portais específicos para setores como a indústria farmacêutica, consultoria e políticas públicas.
A regra do currículo de duas páginas: Define um limite rigoroso e trabalha dentro dele. As restrições forçam a clareza, e clareza é exatamente o que os responsáveis de seleção (hiring managers) precisam de ver.
Pronto para dar o salto?
O programa Beyond Academia é uma jornada estruturada em 4 sessões, concebida para investigadores que estão a fazer a transição da academia para a indústria, orientada pela Dra. Judy Mielke e por Gülhiş Sarap Lindau. As sessões cobrem tudo: desde traduzir a tua experiência académica em valor para a indústria, a reestruturar o teu currículo, ativar a tua rede de contactos e preparar-te para entrevistas. Tu defines o ritmo, com apoio especializado do início ao fim.
As sessões podem ser reservadas individualmente ou como um pacote completo de 4 sessões.
Sessão 01 (Judy): O que construíste é ouro para a indústria (What You’ve Built Is Industry Gold)
Sessão 02 (Gulhis): A tua tradução — Currículo e a tua história (Translating You — CV & Your Story)
Sessão 03 (Judy): Posicionar a tua experiência para a indústria (Positioning Your Expertise for Industry)
Sessão 04 (Gulhis): Simulação de entrevista e o teu plano de ação para os 90 dias (Interview Simulation and Your 90-Day Launch Plan)
Para te inscreveres ou saberes mais, escreve-nos para: consultation@scientifyresearch.org
Queres apoiar os teus investigadores durante a transição?
Se trabalhas num gabinete de apoio à investigação ou numa equipa de desenvolvimento de investigadores, o workshop Beyond Academia leva este conteúdo até à tua instituição através de uma sessão de grupo personalizada, online ou presencial.
Explora o workshop: Beyond Academia: Academia-to-Industry Transition Workshop