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Mobilidade internacional– os EUA continuam a ser o melhor local para a formação pós-doutoral?

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USA for international research mobility

Há muito que a mobilidade internacional é aceite entre os investigadores académicos e é normal que um laboratório de investigação tenha pelo menos meia dúzia de membros de nacionalidades diferentes. Existem várias vantagens nesta troca internacional de talento académico e, a nível individual, é visto como o caminho estabelecido para uma carreira de investigação independente. Entre as principais escolhas para a formação pós-doutoral internacional estão os EUA. Por outras palavras, a lenda urbana entre os investigadores é que para ter um laboratório próprio de pesquisa independente, é preciso fazer um pós-doutorado, e de preferência nos EUA. Ironicamente, apesar de sermos cientistas e supostamente seres racionais, muitas vezes no meio académico temos tendência a confiar em informações passadas de pessoa em pessoa e esquecemo-nos de pedir alguns dados de base no mundo real.

De forma a resolver esta questão, tomei a liberdade de compilar algumas provas reais de investigadores que criaram recentemente os seus laboratórios independentes. Antes de entrar na metodologia aprofundada deste estudo meramente de observação, há algumas exceções que devo declarar. Em primeiro lugar, há uma ampla interpretação de sucesso e eu, mais do que ninguém, não estou a defender carreiras de investigação independentes como o único caminho para uma carreira gratificante; no entanto, dado que cerca de 86% dos investigadores que prosseguem a formação pós-doutoral têm a intenção de prosseguir uma carreira de investigação académica como investigador principal independente (Hayter and Parker, 2019),  creio que seria justo analisar que tipo de formação pode ajudar os investigadores a atingir este objetivo.

Receber o reconhecimento de uma instituição para enveredar por uma carreira de investigação independente é uma coisa, mas ainda mais importante, é a habilidade de liderar projetos de investigação à realização e ao seu destaque em revistas científicas que sejam bem reconhecidas pelos pares da comunidade cientifica. Voltamos de novo ao ponto de definir sucesso e, embora o fator de impacto seja controverso, como imunologistas, nós estamos bastante orgulhosos por os nossos artigos serem publicados por revistas cientificas como a Nature ImmunologyScience Immunology e a Immunity.

Este estudo de observação foi realizado da seguinte forma:

Hipóteses/Perguntas

  1. É necessária experiência internacional para uma carreira de investigação bem-sucedida?
  2. O melhor lugar para a formação pós-doutoral são os EUA?

Metodologia

  1. Foram incluídos no estudos 100 artigos publicados recentemente pelas revistas científicas Nature ImmunologyScience Immunology e a Immunity .
  2. Cada autor correspondente a cada artigo selecionado, foi examinado com base nas suas informações públicas disponíveis em websites institucionais e perfis de redes sociais.
  3. Os “Novos investigadores independentes” foram definidos como aqueles que iniciaram o seu próprio laboratório nos últimos 10 anos.
  4. A instituição atual e a sua localização foi comparada com as instituições de doutoramento e pós-doutoramento e respetivas localizações dos novos investigadores.
  5. Investigadores cujas informações não estão disponíveis publicamente foram excluídos do estudo.

Resultados

Dos 300 artigos analisados, cerca de 56 tinha novos investigadores independentes como um dos autores correspondentes, ou seja, menos de 20%. Sem mais contexto, é difícil comentar o que exatamente este número nos pode sugerir.

Destes novos investigadores independentes, 32 ou 57% têm experiência de investigação internacional, ou seja, mudaram de país em algum momento da sua formação (desde o doutoramento ao pós-doutorado ou de pós-doutorado à situação atual)(imagem1). Enquanto 57% seja mais de metade, a quantidade de novos investigadores independentes bem-sucedidos com experiência internacional aparenta ser relativamente baixa, dados os tão proclamados benefícios da mobilidade internacional.

Imagem 1. Histórico de Mobilidade dos novos investigadores independentes.

Dado que os EUA ainda são, indiscutivelmente, o principal país do mundo no que toca a rendimento de investigação, é possível que aqueles que fizeram o seu doutoramento nos EUA já não tenham vantagem em ir para o estrangeiro, mas sim em ir para outra instituição de prestígio nos EUA. Para analisar esta questão, os dados foram subdivididos com base no local onde os investigadores completaram o seu doutoramento (EUA versus internacional). Entre este subconjunto de 36 investigadores que concluíram o doutoramento fora dos EUA, a proporção de investigadores com experiência internacional aumentos substancialmente e 78% têm experiência de investigação no estrangeiro (Imagem2).

Imagem 2. Histórico de mobilidade dos novos investigadores independentes (formação PhD fora dos EUA).

Por outro lado, entre os 20 investigadores que concluíram o seu doutoramento nos EUA, apenas 20% foram fazer investigação no estrangeiro, enquanto que a maioria continuou a sua investigação noutra instituição nos EUA (65%) (Imagem 3).

Imagem 3. Histórico de mobilidade dos novos investigadores independentes (PhD nos EUA).

Claramente, que quando se trata de mobilidade internacional, esta parece beneficiar os investigadores fora dos EUA mais do que os que já se encontram nos EUA.

Para responder à segunda pergunta “os EUA continuam a ser o melhor local para a formação pós-doutoral”, a resposta é um redundante “sim”. Dos 56 novos investigadores independentes que recentemente publicaram nas principais revistas científicas de imunologia, 37 fizeram o seu pós-doutoramento nos EUA (66%), seguidos da Alemanha, Suíça, Reino Unido e Austrália (tabela 1).

Postdoctoral Training LocationNumber of Researchers
USA37
Germany4
Switzerland3
UK3
Australia2
Tabela 1: Top 5 países para formação pós-doutoral.

Interpretação e Observações

Antes de analisar mais profundamente um pequeno conjunto de dados e tirar conclusões precipitadas, devo sublinhar mais uma vez que se trata de um estudo de observação e que as tendências observadas podem ou não aplicar-se a um conjunto de dados maior e em áreas de estudo diferentes. No entanto, a tendência apoia a opinião geralmente aceite de que os EUA são o melhor local para a formação pós-doutoral. Porém, o que é mais surpreendente são os 9% de novos investigadores independentes bem sucedidos que nunca deixaram as suas instituições de origem. A minha interpretação deste facto é que, embora possa haver um modelo para o sucesso, pode ser ainda mais importante seguir os interesses de investigação, mesmo que isso signifique permanecer na mesma instituição. Naturalmente, esta é apenas uma interpretação e pode haver outras razões que não são imediatamente transparentes nos números.

Um dado particularmente notável é o da  University of Oklahoma – do ponto de vista da classificação, não se encontra entre as melhores universidades do mundo. No entanto, entre os investigadores que recentemente se estabeleceram com sucesso como imunologistas de topo a nível mundial, dois deles completaram a sua formação de doutoramento na Universidade de Oklahoma (para referência, três do grupo de 56 foram formados em Harvard). Será que isto significa que já é altura de nos concentrarmos menos nos sinais de sucesso e, em vez disso, prestarmos atenção às verdadeiras descobertas científicas? E talvez, em vez de seguir modelos para o sucesso, seja altura de criar o seu próprio espaço e ser apenas o seu eu mais autêntico.

Uma coisa que provavelmente ajudará nesta jornada para a independência é ter o seu próprio financiamento para a investigação, que lhe permite trabalhar num tópico do seu interesse num laboratório à sua escolha. Estas oportunidades são mais comuns do que se pensa. Um recurso para este tipo de oportunidades de financiamento é a lista de oportunidades de pós-doutoramento no GRANTguide e não se esqueça de verificar os recursos que o gabinete de investigação da sua própria universidade oferece.

Referências

Hayter, C. S. and Parker, M. A. Factors that influence the transition of university postdocs to non-academic scientific careers: An exploratory study. Research Policy, 2019. Vol 48(3): 556-570.

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