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Uma melhor distribuição de financiamento para investigações – poderia a aleatorização parcial ser a resposta? 

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Poderia a aleatorização parcial ser a resposta para uma melhor distribuição de financiamento para investigações?

Para muitos dos desafios da sociedade, incluindo os objetivos de desenvolvimento sustentável global da ONU, o financiamento de investigações é crucial. No entanto, nós também sabemos que o simples facto de se atirar dinheiro para cima de um problema não significa que o problema tenha sido resolvido. Isto é especialmente verdade no que diz respeito ao financiamento de investigações. Não é só vital dispor de um fundo abundante para investigações, como também esse financiamento ser investido em investigadores com as melhores ideias e com conhecimentos relevantes, para que assim possamos alcançar todos os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável global da ONU.

Recentemente estivemos à conversa com a Drª. Helen Woods do Research on Research Institute (RoRi), um consórcio de financiadores de investigações, parceiros universitários e indústria de apoio a investigações de 13 países e regiões diferentes, para saber mais sobre a aleatoriedade das decisões sobre o financiamento de investigações. Mais concretamente, no projeto RoRI’s RANDOMISATION, um elemento de “sorteio” é introduzido no processo de tomada de decisão sobre o financiamento de investigações. 

Tradicionalmente, os financiadores de investigação têm utilizado a avaliação pelos pares da mesma área, como forma de distinguir e classificar os investigadores aptos e as propostas de investigação a financiar. A avaliação pelos pares, no sentido mais amplo, é quando especialistas são abordados para rever propostas de outros especialistas. Existem várias formas desta avaliação “falhar” na seleção dos melhores investigadores e das melhores propostas de investigação. Alguns exemplos de falha inclui quando estes pares favorecem projetos mais conservadores  em detrimento de projetos de alto risco [1], quando os revisores deixam as suas preferências, sejam elas conscientes ou inconscientes, influenciar a tomada de decisões [2, 3], ou quando estes modificam as suas classificações após verem a avaliação da mesma proposta feita por outros especialistas [4]. Os financiadores têm uma evidente necessidade de inovar os processos de financiamento de investigações, tendo em conta as lacunas da avaliação pelos pares, juntamente com o crescente número de candidaturas e um orçamento de investigação estagnado.

No projeto RoRI’s RANDOMISATION, diversos financiadores, incluindo a Volkswagen Foundation, a Swiss National Science Foundation (SNSF), o Austrian Science Fund (FWF) e o Health Research Council of New Zealand, adaptaram o conceito de aleatorização para obter resultados de financiamento aprimorados para os seus programas de financiamento a investigações. 

No cerne da questão, a metodologia da aleatorização envolve a aplicação da mesma após a habitual avaliação pelos pares e, esta pode ser utilizada para complementar os métodos de seleção existentes. Projetos e investigadores são avaliados quanto à qualificação inicial, classificados por avaliação pelos pares, e apenas os projetos mais bem qualificados são selecionados para a fase final de aleatorização, onde se determinam os “vencedores” dos fundos. Quais podem ser os argumentos a favor e contra a aleatorização? De acordo com o manual de RoRI’s The Experimental Research Funder’s Handbook (Financiadores de Investigação Experimental):  

Argumentos a favor da aleatorização parcial

  • A aleatorização reduz a parcialidade e promove diversidade. Através da aleatorização do financiamento entre todas as candidaturas com maior mérito, argumenta-se que se poderia reduzir o preconceito em relação à idade, género, etnia e afiliação;
  • A aleatorização promove a inovação e a criatividade. Supõe-se que os avaliadores preferem uma abordagem conservadora em detrimento de projetos de investigação mais arriscados (1), portanto, argumenta-se que a aleatorização pode melhorar o sucesso do financiamento de propostas de investigação mais arriscadas;
  • A Aleatorização aborda a “imprevisibilidade” da avaliação pelos pares. Sabe-se que a pontuação dos pares para as mesmas candidaturas podem variar, desta forma a aleatorização retira o elemento introduzido pelos avaliadores e formaliza-o com um processo em que todos os candidatos de mérito têm as mesmas probabilidades de sucesso;
  • A Aleatorização reduz a carga dos avaliadores. A avaliação pelos pares de pedidos de bolsas é um processo demorado, e o facto de terem de comparar e classificar as propostas acresce consideravelmente a carga de trabalho. Aleatorização alivia a carga do avaliador ao pedir que estes tomem uma decisão binária, que é menos demorado. 

Argumentos contra a aleatorização parcial

  • A Aleatorização compromete  a tomada de decisões com base no mérito. O argumento principal contra a aleatorização parcial é que esta vai contra o uso do mérito na tomada de decisão científica;
  • A aleatorização pode criar estigma e danos à reputação. Como resultado da eliminação da tomada de decisões somente com base no mérito, os investigadores que são financiados através de aleatorização parcial podem ser considerados menos merecedores do seu sucesso, e como resultado, tanto o financiador como o beneficiário podem sofrer danos à reputação.

A aleatorização pode ser uma maneira de melhorar o sucesso dos resultados do financiamento de investigações

Aparentemente, as preocupações levantadas contra a aleatorização parcial estão relacionadas com a perceção do mérito científico e com o facto da reputação poder ser de alguma forma prejudicada se o sucesso de alguém se dever à pura sorte. 

Ainda que estas preocupações devam ser tidas em consideração, temos também de reconhecer que nenhum ser humano é infalível e que é impossível prever com exatidão a realização bem sucedida de propostas de investigação. Um elemento de aleatoriedade pode ser exatamente o que é necessário para reduzir a parcialidade e conseguir uma distribuição justa do financiamento de investigação. Para mais informações sobre a forma como os quatro financiadores implementaram a aleatoriedade na sua estratégia de financiamento de investigação, consulte o The Experimental Research Funder’s Handbook do RoRI. 

Agradecimentos

Agradecemos à Dr.ª Helen Woods, do Research on Research Institute (RoRI), por ter disponibilizado um tempo para falar connosco e por ter aprovado o conteúdo desta publicação no blogue. 

Referências

[1] Luukkonen, T. Conservatism and risk-taking in peer review: Emerging ERC practices. Research Evaluation. 2012. 21: 48–60.

[2] Ginther, D. K., Schaffer, W. T., Schnell, J., Masimore, B., Liu, F., Haak, L. L., Kington, R. Race, ethnicity, and NIH research awards. Science. 2011. 333(6045): 1015-9.

[3] Severin, A., Martins, J., Heyard, R., Delavy, F., Jorstad, A., Egger, M. Gender and other potential biases in peer review: cross-sectional analysis of 38250 external peer review reports. BMJ Open. 2020. 10: e035058.

[4] Lane, J. N., Teplitskiy, M., Gray, G., Ranu, H., Menietti, M., Guinan, E. C., Lakhani, K. R. Conservatism gets funded? A field experiment on the role of negative information in novel project evaluation. Management Science. 2022. 68 (6): 4478–4495.

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